terça-feira, 13 de outubro de 2009

Descobrindo

(foto Jose de Almeida & Maria Flores)



Passeio pela sua boca
derretendo, sorvida...

Viajo pela pele tua
deslizando, perdida...

Caminho pelo corpo todo
dedilhando, entretida...

Navego nos cabelos
enroscando, absorvida...

Mapeando por inteiro,
decorando curvas, vãos
e fendas, contando pelos,
despenteando cabelos,
aos poucos te conhecendo,
te devorando

languidamente...

Rose

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Corpo lúteo


(Foto Ben Grossens)



De palavra em punho
tantas vezes parti
o mundo ao meio
na intemperança
do meu egocentrismo

Mas meu útero
gritou mais alto:

- Acorda, que ainda é hora!

E os estilhaços de sonhos
cravados nas paredes
de minhas moradas

refletem agora
uma alma remansada.

Enquanto os pesadelos
são sombras apenas
sob as quais adormeço

a salvo.


Malu Sant'Anna

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Café Sozinha



Aquele café servido numa fina xícara de porcelana,
de sabor intenso, forte e levemente adocicado,
esperando por meus lábios a prova do delicado
néctar que absorvo com gosto de saudade,
lentamente e sem pressa, enquanto o descompassado
bater de meu coração anseia a presença iminente.
Talvez seu coração estivesse comigo,
embora seu corpo estivesse distraído com outro corpo,
que não o meu.
Este café traz um sabor de saudade daquele tempo,
de quando a gente era feliz e não sabia.
E de doce passa a amargo com a ausência tua
Que castiga minh’alma assim todos os meus dias.
(Rose)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Delírio

(Foto Valery Velikov)

Teu corpo chora
Frenético e incansável
A me proporcionar prazer
E quanto mais te imploro
Tu segues a explorar cada
Ponto, desvendando os meus
Mistérios, fazendo-me gemer
Baixinho, pedindo mais e mais...

Eu deliro! Tu deliras!

E não pára...

Saliva minha alma
Invade minha boca
Deflora-me e segue
Num ritmo sintônico
Que linda sinfonia!

Sussurras poesia
Serenamente ao meu ouvido
Um gozo se anuncia
E outro...e mais...
Num êxtase poético
Tu cobre-me com teus versos
E eu derramo-me...prosa!

Lena Ferreira

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Uma fraude



Os caminhos, as trilhas que percorremos na vida nos dão oportunidades...
Apresentam-nos encantos. E dentre esses quesitos nos oferecidos a titulo de escolha sempre optei por admirar e me encantar com a essência do ser humano. Com a beleza de sua alma.
Um amigo me postou em um comentário de um texto aqui no blog, a seguinte frase:
“Gosto do simples, é mais verdadeiro.”
Essa frase tem um significado absurdo quando se fala de alma, de essência.
Sim! O simples é verdadeiro.
Nessas oportunidades que encontramos pelos caminhos me encantei com uma alma, de uma essência linda. Comecei a compreender e cheguei às essências e aos extratos. Era como se fosse a última mão de tinta de uma obra de arte... Uma tinta forte que não saía. Era linda, tinta simples, e sua química natural.

Usei lixa fina, muito fina e delicada nessa minha obra de arte... Era a alma perfeita que habitara ali. Chegamos a questionar será que existe? Havia dúvidas. A perfeição era grande.
A sintonia era fina.
Mas eu estava encantada com o perfume que essa alma exalava...
E ela encantada pelo frasco.
Entristeci-me havia errado no meu frasco. Mas me alegrei afinal o mais importante tinha apresentado, tinha doado a minha essência, o meu verdadeiro perfume. Meus sonhos, meus desejos... Pura e verdadeiramente numa entrega íntegra...

Mas não foi só a tristeza daquele dia... A decepção tomou conta de mim no momento em que percebi que foi ao contrário. O frasco que me apresentaram tinha conteúdo falsificado... A Alma que conheci não tinha a essência, nem cheiro que me parecia.
Era uma alma de conteúdo desconhecido, que se juntou a um exército para julgar o frasco... A casca. Casca essa, que surgiu de uma brincadeira com o próprio exército no passado. Veja isso!
E tudo se tornou de difícil compreensão. Valorizei o conteúdo do frasco. Valorizei a essência do ser. Ser Humano.
E como atingir esse frasco? Como atingir essa imagem que me apresentaram?
Impossível.
Não causo ferida na carne!

Essa alma é apenas um frasco não original para o perfume que pensei ter conhecido, ter sentido o cheiro. A imagem que conheci é casca e quanto a isso não se pode fazer nada... Pois me apresentaram um frasco original, porém, de perfume falsificado.

Eu? Eu apresentei um frasco falsificado, mas de perfume original...
Bastava abrir, sentir o cheiro.
A originalidade está na essência da alma que "ele" conheceu.

Às vezes me pego pensando nesse frasco... E não vejo o conteúdo, o perfume. Ele está vazio.
Fico a admirar a verdadeira essência, o verdadeiro perfume, que podem estar em falsos frascos.
O bom conhecedor de alma, de essência, conhece e aproveita a oportunidade que a vida lhe oferece. Ou lhe ofereceu!

O Conteúdo que pensei ter conhecido, o perfume que pensei ter sentido o cheiro, evaporou assim que o frasco falsificado foi aberto para que ele pudesse sentir o verdadeiro perfume da alma que já então conhecia.

O perfume, a essência da alma que conheci é falsificada, e de nada me serve o frasco original...
O perfume não tem qualidade...
Não tem duração...
Quando se trata de uma falsificação.


Gleidi Campos





Como flores

(Foto Papoulas Ana de Sousa,
Borboleta Keith Clementes,
Mãos Google Search)


No meu jardim:
flores carmins,
borboletas e afins.

Em meu coração:
a ternura da mão
que segura a minha...

É quando a procura
chega, finalmente,
ao tão esperado... SIM!

Rose Chiossi

terça-feira, 24 de março de 2009

QUADRO PERFEITO


(FOTO GOOGLE SEARCH)

escorre em mim
a tinta do poema
que desenha em minha pele.
enxarca em mim
o óleo
que teu desejo derrama

se integram,
interagem,
se misturam,

num gozo que nos enleva.
O quadro perfeito...

Gleidi Campos
(FOTO BEN GOOSSENS)


A linha que separa a fantasia da realidade é
Frágil, e quando menos esperamos, ela se rompe.

O que eram dúvidas viram certezas.
O que era certo agora é errado.
Caminhos tortuosos,
Rotas desviadas.
Sonhos inacabados.
Desejos contidos.

O que fica é o sentimento
Que bagunçou nossas vidas
Virou-nos ao avesso
Revisou conceitos
Quebrou regras
Virou amargura
Beijos desejados
Olhar disfarçado
Um sorriso
Um toque
Um olhar
...

O desejo se fez mais forte que a razão,
E como tempestade revirou a nossa vida.
Deixou marcas para sempre em nós dois,
E a dúvida de que haja outro amor que supere
E que nos faça esquecer de nós mesmos e de
Todos os momentos... do tempo em que vivemos...

O tempo dirá.

Rose Chiossi

segunda-feira, 23 de março de 2009

ESPERE

(FOTO K&P)

Um misto de euforia e de medo
Apossou-se de mim, de repente
O que já não era mais segredo
Você me declarou abertamente

Ah...Como queria estar bem perto
Sentir o seu olhar a me invadir
Estou de corpo e alma; peito aberto
Pronta ou quase pronta a lhe seguir

Espere mais um pouco, peço eu
Deixa que esse medo eu domine
Creia, meu coração também é seu
Se quer me ajudar então me ensine

A superar decepções anteriores
A me entregar amando simplesmente
Pelo prazer de amar e sem temores
Ousar e ter feliz o corpo e a mente

Lena Ferreira

DO DESCONEXO DO MEU PENSAMENTO

Do desconexo do meu pensamento
(FOTO GONÇALVES SOUSA)

Subi a íngreme escada do caminho retilíneo
num horizonte previsto e traçado.
Não me curvei, não me esquivei,
mantive-me parado.

Ansiei que aliviasse a dor
de meus turvos olhos, míopes
por forçar a vista a frente
atrás de um sonho róseo e almejado.

E nada!

O medo sorria-me quase sadicamente.
Via todos os dentes!
Perfeitas madrepérolas do crânio.

Bebi o vinho em uma taça feita de âmbar,
só não percebi a cicuta misturada ao líquido fermentado.

Era tarde!

Meu pensamento antes confuso
tornou-se desconexo
e já não mais me fazia sorrir ante a adversidade.
Perdi-me
Miss T.

JARDINEIRO

(FOTO LIV EDGEWORTH)

Ao poço fundo
que continha
e vertia
tanta mágoa
minha

bastou
poucas pás
da tua terra fértil

para florescer
no lugar
o jardim
dos meus sorrisos.

Malu Sant’Anna

segunda-feira, 16 de março de 2009

COMPONDO O OLHAR

Compondo o olhar


(FOTO GOOGLE SEARCH)

Como música trazida pelo vento
Componho o teu olhar
Em meus pensamentos
No brilho que imita a alma
Na imagem traduzida de si
Vejo notas surgirem
Em sua íris

Como Bossa em violão sereno
Vejo o encanto das rimas ...
No olhar lacrimado de purpurina
Que te banha rosto em bicas
No som do silêncio te entendo...

Te busco e te puxo pra dentro
De mim
Te busco e te solto
Pra mim
Assim componho teus inesquecíveis olhares
De ondas de rádio, imagino enfim
A força dessa canção
Dentro dos olhos seus
Nos meus...

Gleidi Campos



AMA-ME

Ama-me



(FOTO MARC PELISSIER)

Quero ser o último poeta
a dizer palavras tristes,
a dizer frases melódicas,
a gemer com a dor de amar.

Quero ser o seu último desejo,
o seu suspiro e gemido,
a sua dor de me querer,
sua última vontade, o seu gozo.

Ofereço meus lábios a um beijo,
e ebriamente me perder
na dança da tua língua...

E assim se apaixone,
se surpreenda,
e te leve às estrelas...

Com um único beijo!

Rose Chiossi 04/03/2009


PARAÍSO

Paraíso



(FOTO GOOGLE SEARCH)

É tão gostoso anoitecer nos teus braços
Enrolada entre pernas e grossos pêlos
Embalada pelo hálito morno e fresco
E o descompasso arfante do teu peito

Tendo ao fundo a canção do vento
Que balança as cortinas, suavemente
E a lua, semi-oculta pelas nuvens
Iluminando mansamente nosso leito

É tão gostoso repousar ao teu lado
Recuperar-me da exaustão do amor
Acariciar o teu suado e saciado corpo
E sorrir, cúmplice, pela satisfação

É tão gostoso amanhecer, despertada
Com doce beijo e uma flor no sorriso
E perceber como é bom ser amada
Por quem se ama: isto sim é o paraíso!

Lena Ferreira-04/03/09


RENOVAÇÃO

Renovação


(FOTO ARMINDO DIAS)

Banhei-me de estrelas
cadentes. Iluminei-me,
fiz-me nova. Bebi da
Lua crescente e bela
tornei-me. Tingi meus
cabelos de mar e meus
pés de saudade. Busquei
nas flores o alimento
em perfume.

Batizada de céu e
purificada de infinito.

Miss T.


TUA ITAPEMA

Tua Itapema



(FOTO JOTA JUNIOR)

Deixa-me ser tua Itapema
linda, aos pés do mar
que eu te consagro
mais uma vez
ao amor infinito.

Vem pelo istmo
do desejo incontido
e te apossa
da minha geografia...

Faz em mim tua morada
teu refúgio, tua estadia.

Percorre
meus caminhos todos
desbravando as penínsulas...

Faz de mim tua estrada
teu remanso, tua poesia.

Eu te recebo inteiro
o gozo, o sonho, o riso
e tu te apossas, enfim
de mim, prá sempre
somente tua:

O teu paraíso!


Malu Sant’Anna


ENTENDER...

Entender...



(FOTO DANIEL COELHO)

Espetacularmente sólido,
é a reação cadente
de meu ser.

Explicitamente sólida,
minha devoção
e prazer.

Crê, somente por crer,
não é assim,
mas crê e se fazer crer,
não tem fim.

Mari's Schurr


terça-feira, 3 de março de 2009

MEU SANGUE... TEU SANGUE



Você precisa sair da linha que divide a brevidade do hoje

Nossa trilha não existe mais

Nossos caminhos já se foram....


Já saboreei você

Provei do doce ao salgado,

já fumei você

Nas narinas teu cheiro infiltrava nos meus pulmões

Já senti você tão dentro, que me sentia fora....


Mas não deixe de me olhar
O ontem foi ontem, e te falo a verdade

Não há o verbo haver e existir

O meu peito bate forte

E preciso jogar-te água pra acordar e ver que não há nós...

não há nós... não há dois....


Pega sua bagagem e caminha sua vida

Não te prendo a um ego inflamado de ser amada

Te libero das garras de uma paixão que se foi...

que se foi....

Deita o teu amor por mim num livro de retratos

Num livro que a edição foi interrompida ,

como você mesmo disse...


Molhe as fotos desse carnaval,

mas com o poder da lembrança apenas...

Sutil...

Forte...vivida...Experimentada...

Numa adolescência cumplice.


Mas não molhe novamente meu rosto


ao te ver sem chão por mim....


Vai ...


Precisas ir....


Gleidi Campos

BANQUETE

(Foto Ben Goosens)


As borboletas silenciam-se diante da beleza da rosa.
Desejosas por suas virtudes esperam o momento
em que o sol a forçe a oferecer o néctar.
Debatem-se disputando a vez com zangões,
besouros e varejeiras.
Mas a rosa, graciosa e estonteantemente bela,
reserva-se a presentear às borboletas,
o seu melhor banquete.

Rose Chiossi


MAR DE LETRAS

(Foto Jean-Sebastien Monzani)

Penso que sou palavras
Nesse mar de letras que se
Agiganta e me engole
Me engasgo, me afogo
Sem afago, sem fogo
Sem ar...Me limito...

Penso que sou palavras
E essa não certeza me tole
Me castra... me solta de
Mim...Penso, apenas...

E no vácuo dessa
Incerteza eu verso, cola
Na mão, juntando as
Letras...deixando marcas
Da minha imperfeição
Amontoada em páginas
(re)viradas.

Lena Ferreira


CONSERVADO


(Foto Google search)

Em espíritos de vinho
conservo o coração daquele
que amei e me magoou.

Por vezes beberico dele.
Mais próximo o sinto.

Miss T.


DILATAÇÃO


(Foto Andrzej Radka)


Sinto falta
de mim
em ti.

Aumentaram
teus espaços
ou fui eu
que fiquei
menor?

Malu Sant'Anna


UM AI DE ESPERANÇA


(Foto Google search)

No reflexo barrento,
Do pedaço que restou da chuva,
Vejo as mãos estremecidas
Tentando sugar o máximo
Daquelas gotas no chão.

Lábios rachados pelo tempo,
Pés descalço pelo momento,
De pura desgraça que
Entristece o coração.

Mari's Schurr


segunda-feira, 2 de março de 2009

PEDAÇOS MEUS

Pedaços meus

É com ninguém
que faço este caminho
de angústia e pedras
Sou eu, só,
caminhando cega
por uma trilha tortuosa.
Ó dor, ben' vinda!
É assim que sei
como estou viva
E passo os passos
no chão bruto
e pó.

Posso deixar de lado
qualquer sonho vão
A sorte é crua
A esperança, nua de certezas
apenas vaga nas sombras
misturando-se à neblina
do crepúsculo.
A noite certa
emudecerá meu gesto:
filme velado
vida velada em brumas.
Vejo o corpo do futuro:
Ossos e carne negra,
negra pele
negros dentes
fiapos brancos de plumas
despencam.

O furacão me suga
É com ninguém
que faço este caminho
de turbilhão
e dor: réstia de luz amarga
acenando,
acenando...

É com ninguém
que cruzo o labirinto
arrastando o peito
sobre cacos.
Só.
Sei. Que preciso
Deseperadamente
Sobreviver.


Gleidi Campos


PESADELOS

Pesadelos
(Foto José Ferreira)

Fui até o inferno ou
o inferno veio até mim
com suas chamas férvidas.
Frio que queima mais que as chamas,
monstros horrendos,
demônios da minha imaginação
arranham-me, puxam-me,
jogam-se contra o chão
até que de sobressalto acordo
de meu pesadelo, fruto
da 'mea culpa' que tortura
minha alma e faz
meu corpo doer, contorcendo-me
contra mim mesma,
ferindo-me por dentro e por fora.
Frio, calor, febre, fome, dor.
Contorce-se em meu ventre
um dragão impiedoso,
revolvendo minhas entranhas,
fazendo-me sangrar até o fim.
Num sobressalto desperto
e, sem saída eu vago
pela escuridão do quarto.
Insone delicio-me no silêncio
da noite, nada mais me assusta
além do dia que ameaça nascer.

Rose Chiossi

EXCLUÍDOS

Excluídos
(Foto Goole Search)

Água escassa
Rugas secas
Fome riscada
No rosto.

Magras tetas
Prole farta
Mágoa alguma
No peito.

Um desgosto:
Velho Chico corroído
Desliza manso e largo
No quintal de chão batido.
Miséria de vida solteira
Mata-lhe a sede
Lágrimas amargas.

Lena Ferreira

FALSO COLAR

Falso Colar
(Foto Solange Mazzeto)


Ornado em teu pescoço está

o colar de pérolas falsas

intercaladas com brilhantes

pedras de vidro.

Mas ele lhe é rico, inestimável,

não poderia querer outra coisa.

Tão cheio de histórias,

lembranças de sua mãezinha,

na verdade a última coisa que

ela lhe deu – ainda carrega seu perfume -

junto ela lhe ofereceu seus sonhos,

anseios, expectativas, desejos.

Hoje carregas ao colo, pendido,

iluminando teu caminho, contrastando

com teu belo sorriso

o colar falso de um amor verdadeiro.


Miss T.

A MULHER QUE FALAVA COM OS PÁSSAROS

A mulher que falava com os pássaros
(Foto Margarida Cêpeda)

Havia naquela pequena cidade de pouco mais de seis mil habitantes, uma mulher que falava com os pássaros. Falava e ouvia. Eles lhe visitavam diariamente e contavam em seus cantos de suas viagens pelo mundo, dos lugares maravilhosos que conheciam. Contavam das matas, dos rios, dos montes e também da crueldade humana, da poluição, da caça ilegal, da ganância.
Ela ficava por horas na varanda de sua casa conversando com os únicos amigos que possuía na vida.
Na cidade, era chamada de louca. Apontavam-na com deboche ou com pavor. Era motivo de piadas e, para os menores, era apontada como perigosa.
Certo dia, alguns rapazes caçaram uns dos amiguinhos da mulher e os jogaram em sua varanda, mutilados e mortos.
Ela ficou terrivelmente ferida em sua alma e então, teve a idéia de avisar o maior número possível de pássaros para que não mais voltassem àquela cidade, sequer a sua varanda. E assim foi por dias, ela avisando seus amiguinhos, que avisaram outros até que nenhum pássaro mais ousou cruzar o céu daquela cidadezinha de pessoas tão cruéis.
Algum tempo depois, ela foi encontrada sem vida, sentada na varanda.
Apesar de dizerem que havia morrido pela loucura ou pela solidão, ninguém que a viu morta jamais esqueceu o ar de serenidade de seu rosto e a candura de seus olhos voltados para o céu.

Malu Sant'Anna

PODER

(Foto Paulo Freitas)


Ao nascer a luz irradiante,

em mim lembranças constantes,

de um novo poder sobremaneira

grande e delicado a ponto de

se importar com a pequena flor

do pântano.


Desce sobre essa flor e com a medida

certa de carinho espalha sonhos

dentro dos corações.


Ah! Se soubéssemos a grandeza

deste poder não haveria nesta galáxia

uma alma fria e nem morte.


O poder veio no meu coração,

e hoje ele vive em constante emoção.

este poder se chama

amor.


Mari's Schurr

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

LUA E SOL


(Foto Bela L. Molnar)

Anoiteço mais um dia... E na noite tão fria, não sinto teu calor costumeiro... Lembro-me quando, às tardes, ao longe, admirava-te, luminoso, espalhando uma doce e revigorante energia que preenchia toda a casa. Bons tempos...Teu sorriso; mil sóis enigmáticos. Quanto
encanto!

Em miragem, tu adentras pelo quarto e a fria noite, constrangida, vai-se embora. Um calor intenso povoa nossa cama. Entre os lençóis embolados, ouço de ti declarações indizíveis. Embalada nesse enlevo, sinto-me revivida. Por um segundo eu supus ser realidade. Mas... Ao abrir os olhos, a cama fria, intocada, denuncia a ilusão. Por fatos tão banais tu partistes.

E eu aqui, gélida como a lua, anoitecendo a cada dia frio, sonhando acordada, na esperança de reaver o brilho do teu sol...


Lena Ferreira-2009

CORDA BAMBA


(Foto Google Search)

Ínfimo é o espaço
de um pé ante o outro,
cambaleante sobre
o fio da dúvida.


Não consigo andar

nessa retidão fatídica
sem me arremessar
aos barrancos do flanco.

É de outro que preciso,
o caminho ao lado,
o não escolhido.

Porque na minha boca
fica sempre o gosto
do pedaço que não provei.

Malu Sant'Anna

DE DÉU EM DÉU

De Déu em Déu
(foto Graça Loureiro)

Eu pergunto à estrela noturna;
- O que você faz aí ao léu?
E ela responde: - Não sei.
Sei que a noite é mistério
Cujos sinais eu quero decifrar.
Você já ouviu os ruídos da noite?
Você já ouviu os silêncios da noite?
Você já voou nos braços da noite?
Você já mergulhou a noite?
As estrelas me acompanham
e enfeitam o meu caminho.
São amigas, companheiras.
Nos seus passos cadencio os meus
E a Estrela Guia é só sabedoria
de quem muito viveu
que alimenta e sacia.
A madrugada me aconchega
em seu colo
E eu percorro a via dos sonhos
E descubro gozos impossíveis
E me embalo nas ondas de luz.
A aurora me despe
e nua me recolho
e a aguardo outra véspera
e assim eu vivo: de Déu em Déu.
Gleidi Campos

NUM QUASE DESABAFO

Num quase desabafo

(foto Vasco A. - Deixo-vos a pensar...)


Tenho um grito contido na garganta
- está lá, na base da língua – prontinho...
mas não sai!
É como um quase grito,
um quase gozo,
um quase...
Desfeita,
estou pelo caminho,
aos pedaços de um eu,
como pás de areia molhada.
Seca
serei mais como o chão
ou melhor, serei as ondulações do chão,
oscilações...
N’alma, parasitada, estão as dúvidas
do que me fizeram conter o grito.


Miss T.

TENHO SEDE...

Tenho sede...
(Foto Victor Melo)


E toda a água do mundo não mata minha sede.


Ouço um chamado.


Como ecos na escuridão, não sei de onde vem.


O coração silencia, sobrevivo amorfa.


Através do espelho vejo teus olhos que me olham.


No limiar entre o sonho e a realidade, teus abraços me envolvem.


E satisfaço minha sede com brumas,
atendo ao chamado na penumbra,
me aqueço no calor do teu corpo ausente,
beijo incansavelmente meu próprio desejo.


Rose Chiossi

VOLTAS E TROPEÇOS

Voltas e Tropeços

(Foto Jingna Zhang)


Andei pelos apertos
cortei-me pelas ruas serrilhadas
que como navalhas tiraram meus
calçados e calejaram meus pés.

Não havia pedras,
Nem lugar onde se assentar,
Apenas espinhos e ao redor
Um imenso mar.

Havia diante de mim,
onde a vista podia alcançar
a esperança do sofrimento enfim
um dia terminar.

Reclamei e não olhava para trás,
esqueci de olhar-me ao espelho
e não percebi que o que almejava
estava perto de me alcançar.

Bastava apenas me assentar,
basta apenas parar.

Mari's Schurr

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

DGTV 2

DGTV 2


Perdida no espaço
nesta trança de aço
que eu mesma teci..
Sua fala me deixa
inconstante...
Sua presença me incomoda


sua indiferença ,
é um gelo que queima...
A discriminação opaca
se torna um drama
Vestida neste seu
Psic(o)drama...
Gleidi Campos

ÁCIDOS

Ácidos
(Foto Paulo Rebelo Loriente)

Vi entre espíritos de sal
meus pés enferrujados
tornarem-se puros. Em
minha alquimia fiz-me ouro
e digna. Água régia lavou-me
e levando-me ao delírio não
mais precisei de aprovação,
misturas ou soluções mágicas.
Das masmorras, liberta.
Miss T.

ZERANDO OS CONTADORES

Zerando os Contadores
(Foto Paulo Franco)

Um segundo estrondoso
que me valha insistir...
Qual navalha
que à carne serve
verve ao despertar.
Sou magnólia tocada pelo vento,
esquife da minha agonia
à espera do jardineiro
para enfim poder sorrir.
Não, ainda não
estou pronta para desistir.
Ainda tenho escroto
mesmo tendo sido
castrada ao renascer,
ao me parir fêmea,
minha mãe.
Tenho nas mãos
atadas pela cinesia
intermitente da vida
a chave do tempo.
Meu tempo.
Descobrir...
Malu Sant'Anna

DESEJO AO EXTREMO

Desejo ao Extremo
(Foto Duarte S.)

De repente meu quarto fica pequeno,
As paredes se comprimem em minha direção,
O dia amanhece mas ainda é escuro,
E as lâmpadas da rua estão acesas.

Tive um sonho ruim de desespero,
Onde ouvia tua voz distante a me chamar,
Acordei de sobressalto sentindo teu cheiro
E o calor do teu corpo ardendo em febre.

Senti teu suor e um suspiro, o teu chamado
Estava no ar e quis te abraçar, meu travesseiro
Era o teu corpo, e o teu cheiro meu perfume,
Teu calor era o meu e a febre, intenso desejo.

Ligo o chuveiro e a água quente, o teu toque
Que desliza pelo meu corpo e se arrepia
Sentindo teu corpo por fora e por dentro,
Deslizando sobre mim, ágil como sabonete.

Quero inteiro, todo e ao máximo,
Que tome para si toda minha doçura,
A maciez e calor que te ofereço,
Imploro: toma-me por sua.
Rose Chiossi 07/08/2008

POEMA DE TARJA PRETA

Poema da Tarja Preta
(foto Daniel Coelho)

Traço apressados rabiscos
Tremendo; temendo riscos,
Dos psicotrópicos, o efeito:
Trazerem-me à razão!

Deixem-me voar mais um pouco
Solta; sem correntes arco-íris
Multiformes e amargas

Não quero tocar no chão agora...
Aviso, eu juro, quando for a hora!

(Quero por mais um segundo
Ser sem preciso estar...)

Deixa-me ao menos concluir este rabisco?

Lena Ferreira-2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A INCRÍVEL HISTÓRIA DA FORMA DE BARRO

A incrível História da Forma de Barro
(Foto Google Search)


Maria, quando criança, em uma das viagens de férias da família, passou em uma pequena loja à beira da estrada estadual que nunca lhe saiu da cabeça. Hoje aos 37 anos lembra bem de todos os detalhes: dos tapetes de peles de boi e ovelhas, das tapeçarias, prataria, conservas de todos os tipo e cores, licores, artigos de churrasco, cachaça de alambique, queijos coloniais, doces em tabletes e compotas, peças de madeira entalhadas e cestaria. Lembra de tudo com tanta particularidade, lembra do cheiro, do pó nos enfeites, da senhora sentada num banquinho no canto da porta e a seus pés vários potes e tigelas de barro, pelo menos eram o que pareciam.

Lembra também de sua mãe, curiosa, perguntando tudo, queria saber pra que servia cada peça exposta naquela pequeno espaço, até que por fim se ateve as peças acomodadas aos pés da velha senhora.
_ Pra que servem essas peças, são vasos de flores? - perguntou a mãe de Maria.
_ Não senhora, são panelas e formas de barro, servem para cozinhar, são muito especiais. - respondeu a senhora

A mãe de Maria não acreditou, afinal cozinhar em barro, sim pois era isso que era afinal, barro seco, não interessa como era feito, barro é sujeira. Não quis desfazer da senhora, afinal ela tinha idade, e aprendera a respeitar os mais velhos, mas pra panelas aquilo não servia. Muito contrariada levou uma forma já que Maria encantada com aquilo, dizia que queria provar uma comida feita ali. A tigela tinha uns 25 cm de diâmetro e uns 15 cm de altura, a mãe de Maria já pensava no que por dentro da vasilha e Maria sonhava com o banquete a ser feito naquela forma.

Bom, anos se passaram, a mãe de Maria nunca fez nada com aquela forma, apesar das investidas da filha, chegou a esconder para que não voltasse a perguntar. Até que dias antes de se casar Maria a encontrou no fundo de um armário pouco usado pela família, pegou-o e colocou junto com suas coisas que iam para sua casa nova. Deixando por muito tempo guardado, não sabia exatamente como usá-la.
Pesquisou, revirou receitas antigas, e finalmente descobriu como usar a forma de barro, comprou os ingredientes, convidou os familiares, seria um evento especial, finalmente provaria a comida feita na forma, tão sonhada, tão presente em sua infância.
Tudo estava pronto, mesa posta, família reunida, flores, bebidas, risos das crianças correndo, brincando, conversas dos adultos empolgados querendo saber o motivo da festa, o porque de estarem reunidos fora de data festiva. Finalmente Maria entra na sala de jantar com a forma nas mãos, sorridente que só ela, sua mãe ficou de olhos arregalados.
Todos sentaram-se a mesa, serviram-se, e deliciaram-se com cada iguaria preparada, e provaram o prato especial feito na forma de barro. Maria à cabeceira da mesa, olhava satisfeita para todos. Percebeu enfim porque os utensílios de barro são tão especiais, unem as pessoas, deixam a todos felizes, compartilhando os sentimentos bons.
Miss T.

EMBARCO

Embarco
(Foto Rui Bento Alves)

Rumo ao desconhecido, ao imaginário futuro,
incerto... mas que por certo serei bem recebida.
Em terras estranhas, um mundo diferente,
quantas promessas essa nova vida me traz.
Embarco nesta nave gigante
que atravessa os sete mares,
errante navegante,
enfrento tempestades.
Eu vejo... lá no fim,
na linha do horizonte...
a terra prometida.
Assim que meu pé toca o solo,
sustentando as pernas ainda trêmulas,
deixo para trás minha vida passada,
decidida a esquecê-la inteiramente.
Sacudo o pó que o vento leva para alto-mar,
olho ainda uma vez mais e pela última vez,
me despeço do que fui e de tudo que representei
a mim mesma.

Rose Chiossi 04/02/09

MUDA

Muda
(Foto A. Brito)

Lancei à força plena
o corpo cansado
contra os rochedos
cobertos de cracas.


A pele surrada
pela fuligem do caminho,
soltou-se aos poucos
do apego humano
à carne que continha...


E fiquei assim,
por dias, carne viva,
à flor de minhas culpas.


O sal, do mar, de mim,
em sua inerente assepsia,
permitiu-me a muda
e enfim, recobri-me:


Nova!


Malu Sant'Anna

QUERIA FALAR...

Queria Falar (Foto Luís Lobo Henriques)

Apago a luz. Deixo-me envolver pelo luar que me chega pelo vidro da janela. Fico sossegada, a ver pontos brilhantes no céu. Estrelas… tantas. Tão distantes e mesmo assim, mesmo assim, parece que basta colocar-me nas pontas dos pés para roubar uma que dê brilho ao meu olhar.
Assim no escuro, só quero deixar de sentir. Adormecer como que embalada nas asas de anjo e ao acordar, que tudo fosse diferente. Conseguir perder-me em corpos estranhos nas noites perdidas que sucedem os dias, sem sentir depois, um travo amargo na boca, a errado. Abrir de vez as portas que mantenho entreabertas há tempo demais. Pelo medo de tentar e perder, pelo medo de arriscar, ao mesmo tempo que vem cá de dentro algo inexplicável que me diz para ir, para não ter medo de perder o pé, para saltar e deixar-me cair. Escancarar o peito e gritar o que sou. Sem pensar que fico exposta, delicada ou carente.
Esta noite não quero uma música que toca baixinho, que põe à prova os meus sentidos. Desligo o telefone porque não quero ouvir a voz dos outros. Não quero água quente em banhos demorados, nem luz de velas, nem desejos satânicos a povoarem-me os pensamentos. Não quero um café nem livros no regaço. Não quero nada mais além de mim, não quero outras histórias, outras vozes nem outras vidas.
E deixo-me ficar assim, ouvindo de quando em vez os sons dos bichos noturnos. Quieta. Também eu animal da noite.Quero silêncio. Para me ouvir. Para assimilar os dias intensos e perceber o que sinto. Para entender, ou simplesmente aceitar. Talvez, quem sabe assim, no silêncio, possa escutar o que o coração me grita desalmadamente, sem sossego…
Queria dizer talvez, que tenho a vida presa nas mãos vazias. Que amanhã não estarei aqui e tudo ficará num lugar escuro, como se nunca nada tivesse existido antes. Tudo o que sonhei, o que desejei e o que vivi. Resumido a nada.E nesta vida à qual me agarro, há horas em que nada posso fazer. Como se nenhum gesto houvesse para mudar o rumo das coisas, percorrendo o mundo fingindo que navego. E de repente sou vagabundo, rei num palácio de cristal. Uma vida tão cheia, sentindo-me eu tão cheia de nada. Aceitando quando os outros decidem essa vida por mim.
A revoltar-me quando me dizem que o que tiver que ser, será. Como se existisse um destino cruel que me obrigasse, de um lugar que não alcanço, a viver em função da sua vontade. E cá dentro, não aceito. Não quero isso para mim. Eu posso escolher… mesmo que muitas vezes as minhas escolhas passem pelas escolhas dos outros. Falar de quando me sinto errada e perdedora, quando nada bate certo.E as horas em que aceito a vida assim, conformada, quando só me apetece gritar-lhe, contrariar o mundo, revoltada, e dizer-lhe que não, que não é bem assim. Dizer-lhe que eu sou capaz, que a vontade faz metade do caminho, que é possível. Mas olho ao redor. E afinal, estou sozinha. Já nada fica tão simples …
Queria falar das horas em que amarro a vontade de chorar. Que sinto um nó na garganta, um aperto no estômago que sufoca, como uma angustia que mói devagar. Ou falar de quando me rendo às lágrimas, vencida. Dizer que muitas vezes choro por me sentir feliz e outras rio com uma vontade que me rebenta por dentro, de chorar.
Queria falar do que sou. Daquilo que vai além do que os olhos do mundo conseguem alcançar. Que sou mar revolto em dias de tempestade, mar calmo que apazigua o peito, que sou palavras e imensidão. Que estou viva e envolvo as mãos na terra onde planto girassóis para depois pintar na janela o sorriso da alma.
Queria falar das crianças que não tive, desse amor que não dei, que não conheço, que não sei como é. Desse amor maior, que nada espera. Dizer que não construí um lar recheado de cumplicidade porque não me foi permitido. Que sou anjo ferido na asa, que não posso voar.
Queria falar da coragem que carrego algures e por vezes não sei onde está. Ou das horas de fraqueza, quando dou por mim a seguir caminhos por onde quero, mas não devo ir.Queria falar das coisas grandes que trago em mim. Das boas e das outras… de tudo aquilo que por ser maior não se pode quantificar. As coisas que sinto, apenas porque sim. Sem motivo, sem razão.
Queria falar da solidão que carrego, por sentir que me faz falta a outra metade de mim. Ou apenas dizer que há momentos em que o tempo me prova que não volta atrás e que eu já nem sequer quero seguir em frente. Porque me vejo em encruzilhadas sem saídas que não me deixam escolher. Das horas em que não é tanto assim, que não estou só, que se estou, me habituei. E deixo de pensar nisso.Queria falar das oportunidades que me recusaram, que eu recusei, e das outras, que neguei. Falar dos momentos em que só desejo outra chance da vida para voltar atrás e quem sabe, fazer tudo outra vez. Re-fazer. Re-sentir. Re-viver. Mas na plenitude, no melhor daquilo que posso ser.
Queria falar de todos os amores que carrego no peito. Dos que senti sem viver, dos que podiam ter sido e não foram, das esperas onde me vi esquecida. Dos amores grandes e dos encantos. Dos arrebatadores que nos levam a alma e dos envoltos em algodão doce. Das saudades que sinto de todos os amores que ainda não vivi. Dos que não vivi porque não me permitiram, dos que desisti por me obrigarem a deixá-los partir. Dos amores que morreram à nascença, dos amores com um fim determinado, antes ainda de existirem. Dos que não se tentaram, dos que ficaram no escuro de quartos de hotel que nunca viveram a luz, que ficaram nas sombras. E na memória. Dos homens que nunca consegui amar, dos que nunca consegui que me amassem. Dos que amei e perdi. Dizer baixinho, no silêncio, que a linha que separa o querer bem do querer demais, é tênue.
Queria falar que sou pássaro que voa solto para lugar nenhum. Que o meu coração é triste, mas livre e que o meu olhar não pertence a ninguém. Da liberdade que sinto e não sei o que quer dizer, nem o que fazer com ela. Das horas que estendo as asas ao vento e plano lá no alto do mundo, misturada no azul altivo do céu, mergulhando no profundo azul do mar. E falar das outras horas em que sou apenas uma alga sozinha e esquecida, perdida na orla da praia depois que baixa a maré.
Queria falar de quando sou jangada à deriva no alto mar, quando o céu é negro de nuvens carregadas. Quando as ondas me ameaçam derrubar e eu, sem bússola nem porto seguro, me deixo ir. Agarrando-me àquilo que sou, cá por dentro, acreditando que a vida não pode ser só isto. Que a tempestade, irá passar.
Queria falar dos muros que o medo constrói em torno de mim, das amarras indeléveis que me prendem. E das muralhas em torno dos outros, das quais me sinto refém, mesmo estando do lado livre da barreira intransponível. Falar dos nós e dos laços que nem sempre nos deixam voar, que vivemos entrelaçados como braços que nos agarram e não nos deixam soltar. Os nós do medo… que nos aprisionam e sem darmos conta, prendem os outros que já se sentem prontos a voar.
Queria falar das coisas grandes que não me cabem no peito. Falar que estou confusa e triste… que faço mantas de retalhos de memórias numa forma vã de não chorar. Queria falar de coisas que não se dizem, mesmo querendo. Do que é imenso e não existem as palavras certas para explicar. Porque as coisas grandes exigem palavras ainda maiores, e são pequenas as que conheço.
Queria falar mas não o faço. Fico no silêncio a ouvir o que tenho a dizer, a escutar-me. A procurar-me. A tentar perceber onde me perdi.Queria falar, mas nada tenho a dizer. Não tenho voz nem vontade. Não encontro as palavras que perdi. E cansada, acabo por desistir.
Juro que queria falar… de amor e de tudo que é sublime… mas não sou capaz.

Gleidi /08

A MINHA DOR DE AMOR.

A Minha Dor de Amor

(Foto Victor Melo)

Dói.

Crava e corta como lâmina de aço
Afiada como uma língua ferina, má
Talha e sangra todo o ambiente
Deprimente; roupas fora do lugar.
Dói
Respinga por todo o quarto
Maculando nossa cama
Registrando o duro fato
Imprimindo o meu fracasso
Conturbando minha visão.
Dói
E como gotas lenitivas
Bebo meu próprio sangue
Envenenando de vez o corpo
Pois a alma...já se foi....

Lena Ferreira-27/01/09

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

PRESA NAS TEIAS DA VIDA

Presa nas teias da vida
(Foto Yaleo)

Embaralho-me no entrelaçar de desejos
e sonhos de cada pessoa que
a cada instante e a todo momento
me cerceia, cada vez que penso,
cada vez que planejo
e outro entra no meio.

Envolve-me com sua vontade,
entrecruzando com a minha,
sobrepõe-se a maior verdade,
que nas teias da vida
estamos todos bem amarrados.

Há um amor maior, um sonho maior
realizado por nós neste veio,
lutando e desbravando
para que seja enfim, liberto.

E livre, tece sua própria teia
a comandar seus desejos
sobrepondo-se aos alheios.

Rose 28/01/2009

ENSAIO A DANÇA COMUM

Ensaio a dança comum
(foto: Catarina Krug - Alma que Dança)

Nos tênues fios que em abraço nos envolve,
perco-me em arroubos de euforia num enlace
que chega a sufocar. Encanto-me.
Ah, os finos traços de tua beleza juvenil!

Bailamos a sombra de nossos corpos
na melodia do silêncio sepulcral,
e perdemo-nos no joguete dos membros

Por fim desapareces entre a luz matinal.
Permaneço à espera do teu retorno.

Minha solidão não é ferida a ser curada.

Miss T.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

LAVAGEM CEREBRAL

Lavagem cerebral

Corpos jazem

combalidos na mítica

convalescência

abstinente.

Trocaram vícios

recorrentes

por um novo:

o não viver.

Terapias falhas

dão nisso.

São muito eficazes

no fabrico

de mortos-vivos.

Malu Sant'Anna

COMEÇAR? PRÁ QUE?

Começar? Prá que?
IMAGEM GOOGLE SEARCH


O primeiro marca o início do fim,
então não quero fazer primeiro.
Deixe-me ser o segundo da fila,
ser o do meio, pra não ser o último.
Não quero roubar a virgindade,
então dou-lhe passagem, fique à vontade...
O primeiro é tenso,
o segundo tem mais tempo,
mas não quero provar o resto.
Deixe-me no meio,
enquanto está quente,
mas não ainda fervente,
estou sem pressa
não como cru,
estou com tempo,
vai, se apresse
e prepare a mesa,
eu quero um banquete.

Rose Chiossi

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

NORMALIDADE

Normalidade
IMAGEM MARIAH (sem aspas nem itálicos)
Em permeio ao lugar comum e qualquer lugar,
estou sem a inspiração necessária à vida.

Tudo igual. Exatamente igual e sempre.
E eu oca, cega, surda, muda.

Estreita era a estrada e se fez preciso encolher-me,
esquivar-me para não esbarrar nos espinhos
venenosos de meus próprios pensamentos.

Um caminho sem encostas, ladeiras, horizontes,
onde eu pudesse fugir de mim mesma.

Meio torpe meio tosco, refiz-me em fino cristal.
O medo se fez presente uma vez que me tornei frágil.

Diante da inevitável convivência,
percebi que sou o que me estraga.

Jaz à vontade, o livre arbítrio,
tornei-me escrava do comum.
Sou um clone da normalidade,
da mesmice. Banhada na ignorância.

Vencida na rotina, normalidade abusiva
que me faz ser só mais uma.
Malu Sant'Anna e Tahys Meybom (Miss T)