quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

QUERIA FALAR...

Queria Falar (Foto Luís Lobo Henriques)

Apago a luz. Deixo-me envolver pelo luar que me chega pelo vidro da janela. Fico sossegada, a ver pontos brilhantes no céu. Estrelas… tantas. Tão distantes e mesmo assim, mesmo assim, parece que basta colocar-me nas pontas dos pés para roubar uma que dê brilho ao meu olhar.
Assim no escuro, só quero deixar de sentir. Adormecer como que embalada nas asas de anjo e ao acordar, que tudo fosse diferente. Conseguir perder-me em corpos estranhos nas noites perdidas que sucedem os dias, sem sentir depois, um travo amargo na boca, a errado. Abrir de vez as portas que mantenho entreabertas há tempo demais. Pelo medo de tentar e perder, pelo medo de arriscar, ao mesmo tempo que vem cá de dentro algo inexplicável que me diz para ir, para não ter medo de perder o pé, para saltar e deixar-me cair. Escancarar o peito e gritar o que sou. Sem pensar que fico exposta, delicada ou carente.
Esta noite não quero uma música que toca baixinho, que põe à prova os meus sentidos. Desligo o telefone porque não quero ouvir a voz dos outros. Não quero água quente em banhos demorados, nem luz de velas, nem desejos satânicos a povoarem-me os pensamentos. Não quero um café nem livros no regaço. Não quero nada mais além de mim, não quero outras histórias, outras vozes nem outras vidas.
E deixo-me ficar assim, ouvindo de quando em vez os sons dos bichos noturnos. Quieta. Também eu animal da noite.Quero silêncio. Para me ouvir. Para assimilar os dias intensos e perceber o que sinto. Para entender, ou simplesmente aceitar. Talvez, quem sabe assim, no silêncio, possa escutar o que o coração me grita desalmadamente, sem sossego…
Queria dizer talvez, que tenho a vida presa nas mãos vazias. Que amanhã não estarei aqui e tudo ficará num lugar escuro, como se nunca nada tivesse existido antes. Tudo o que sonhei, o que desejei e o que vivi. Resumido a nada.E nesta vida à qual me agarro, há horas em que nada posso fazer. Como se nenhum gesto houvesse para mudar o rumo das coisas, percorrendo o mundo fingindo que navego. E de repente sou vagabundo, rei num palácio de cristal. Uma vida tão cheia, sentindo-me eu tão cheia de nada. Aceitando quando os outros decidem essa vida por mim.
A revoltar-me quando me dizem que o que tiver que ser, será. Como se existisse um destino cruel que me obrigasse, de um lugar que não alcanço, a viver em função da sua vontade. E cá dentro, não aceito. Não quero isso para mim. Eu posso escolher… mesmo que muitas vezes as minhas escolhas passem pelas escolhas dos outros. Falar de quando me sinto errada e perdedora, quando nada bate certo.E as horas em que aceito a vida assim, conformada, quando só me apetece gritar-lhe, contrariar o mundo, revoltada, e dizer-lhe que não, que não é bem assim. Dizer-lhe que eu sou capaz, que a vontade faz metade do caminho, que é possível. Mas olho ao redor. E afinal, estou sozinha. Já nada fica tão simples …
Queria falar das horas em que amarro a vontade de chorar. Que sinto um nó na garganta, um aperto no estômago que sufoca, como uma angustia que mói devagar. Ou falar de quando me rendo às lágrimas, vencida. Dizer que muitas vezes choro por me sentir feliz e outras rio com uma vontade que me rebenta por dentro, de chorar.
Queria falar do que sou. Daquilo que vai além do que os olhos do mundo conseguem alcançar. Que sou mar revolto em dias de tempestade, mar calmo que apazigua o peito, que sou palavras e imensidão. Que estou viva e envolvo as mãos na terra onde planto girassóis para depois pintar na janela o sorriso da alma.
Queria falar das crianças que não tive, desse amor que não dei, que não conheço, que não sei como é. Desse amor maior, que nada espera. Dizer que não construí um lar recheado de cumplicidade porque não me foi permitido. Que sou anjo ferido na asa, que não posso voar.
Queria falar da coragem que carrego algures e por vezes não sei onde está. Ou das horas de fraqueza, quando dou por mim a seguir caminhos por onde quero, mas não devo ir.Queria falar das coisas grandes que trago em mim. Das boas e das outras… de tudo aquilo que por ser maior não se pode quantificar. As coisas que sinto, apenas porque sim. Sem motivo, sem razão.
Queria falar da solidão que carrego, por sentir que me faz falta a outra metade de mim. Ou apenas dizer que há momentos em que o tempo me prova que não volta atrás e que eu já nem sequer quero seguir em frente. Porque me vejo em encruzilhadas sem saídas que não me deixam escolher. Das horas em que não é tanto assim, que não estou só, que se estou, me habituei. E deixo de pensar nisso.Queria falar das oportunidades que me recusaram, que eu recusei, e das outras, que neguei. Falar dos momentos em que só desejo outra chance da vida para voltar atrás e quem sabe, fazer tudo outra vez. Re-fazer. Re-sentir. Re-viver. Mas na plenitude, no melhor daquilo que posso ser.
Queria falar de todos os amores que carrego no peito. Dos que senti sem viver, dos que podiam ter sido e não foram, das esperas onde me vi esquecida. Dos amores grandes e dos encantos. Dos arrebatadores que nos levam a alma e dos envoltos em algodão doce. Das saudades que sinto de todos os amores que ainda não vivi. Dos que não vivi porque não me permitiram, dos que desisti por me obrigarem a deixá-los partir. Dos amores que morreram à nascença, dos amores com um fim determinado, antes ainda de existirem. Dos que não se tentaram, dos que ficaram no escuro de quartos de hotel que nunca viveram a luz, que ficaram nas sombras. E na memória. Dos homens que nunca consegui amar, dos que nunca consegui que me amassem. Dos que amei e perdi. Dizer baixinho, no silêncio, que a linha que separa o querer bem do querer demais, é tênue.
Queria falar que sou pássaro que voa solto para lugar nenhum. Que o meu coração é triste, mas livre e que o meu olhar não pertence a ninguém. Da liberdade que sinto e não sei o que quer dizer, nem o que fazer com ela. Das horas que estendo as asas ao vento e plano lá no alto do mundo, misturada no azul altivo do céu, mergulhando no profundo azul do mar. E falar das outras horas em que sou apenas uma alga sozinha e esquecida, perdida na orla da praia depois que baixa a maré.
Queria falar de quando sou jangada à deriva no alto mar, quando o céu é negro de nuvens carregadas. Quando as ondas me ameaçam derrubar e eu, sem bússola nem porto seguro, me deixo ir. Agarrando-me àquilo que sou, cá por dentro, acreditando que a vida não pode ser só isto. Que a tempestade, irá passar.
Queria falar dos muros que o medo constrói em torno de mim, das amarras indeléveis que me prendem. E das muralhas em torno dos outros, das quais me sinto refém, mesmo estando do lado livre da barreira intransponível. Falar dos nós e dos laços que nem sempre nos deixam voar, que vivemos entrelaçados como braços que nos agarram e não nos deixam soltar. Os nós do medo… que nos aprisionam e sem darmos conta, prendem os outros que já se sentem prontos a voar.
Queria falar das coisas grandes que não me cabem no peito. Falar que estou confusa e triste… que faço mantas de retalhos de memórias numa forma vã de não chorar. Queria falar de coisas que não se dizem, mesmo querendo. Do que é imenso e não existem as palavras certas para explicar. Porque as coisas grandes exigem palavras ainda maiores, e são pequenas as que conheço.
Queria falar mas não o faço. Fico no silêncio a ouvir o que tenho a dizer, a escutar-me. A procurar-me. A tentar perceber onde me perdi.Queria falar, mas nada tenho a dizer. Não tenho voz nem vontade. Não encontro as palavras que perdi. E cansada, acabo por desistir.
Juro que queria falar… de amor e de tudo que é sublime… mas não sou capaz.

Gleidi /08

A MINHA DOR DE AMOR.

A Minha Dor de Amor

(Foto Victor Melo)

Dói.

Crava e corta como lâmina de aço
Afiada como uma língua ferina, má
Talha e sangra todo o ambiente
Deprimente; roupas fora do lugar.
Dói
Respinga por todo o quarto
Maculando nossa cama
Registrando o duro fato
Imprimindo o meu fracasso
Conturbando minha visão.
Dói
E como gotas lenitivas
Bebo meu próprio sangue
Envenenando de vez o corpo
Pois a alma...já se foi....

Lena Ferreira-27/01/09

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

PRESA NAS TEIAS DA VIDA

Presa nas teias da vida
(Foto Yaleo)

Embaralho-me no entrelaçar de desejos
e sonhos de cada pessoa que
a cada instante e a todo momento
me cerceia, cada vez que penso,
cada vez que planejo
e outro entra no meio.

Envolve-me com sua vontade,
entrecruzando com a minha,
sobrepõe-se a maior verdade,
que nas teias da vida
estamos todos bem amarrados.

Há um amor maior, um sonho maior
realizado por nós neste veio,
lutando e desbravando
para que seja enfim, liberto.

E livre, tece sua própria teia
a comandar seus desejos
sobrepondo-se aos alheios.

Rose 28/01/2009

ENSAIO A DANÇA COMUM

Ensaio a dança comum
(foto: Catarina Krug - Alma que Dança)

Nos tênues fios que em abraço nos envolve,
perco-me em arroubos de euforia num enlace
que chega a sufocar. Encanto-me.
Ah, os finos traços de tua beleza juvenil!

Bailamos a sombra de nossos corpos
na melodia do silêncio sepulcral,
e perdemo-nos no joguete dos membros

Por fim desapareces entre a luz matinal.
Permaneço à espera do teu retorno.

Minha solidão não é ferida a ser curada.

Miss T.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

LAVAGEM CEREBRAL

Lavagem cerebral

Corpos jazem

combalidos na mítica

convalescência

abstinente.

Trocaram vícios

recorrentes

por um novo:

o não viver.

Terapias falhas

dão nisso.

São muito eficazes

no fabrico

de mortos-vivos.

Malu Sant'Anna

COMEÇAR? PRÁ QUE?

Começar? Prá que?
IMAGEM GOOGLE SEARCH


O primeiro marca o início do fim,
então não quero fazer primeiro.
Deixe-me ser o segundo da fila,
ser o do meio, pra não ser o último.
Não quero roubar a virgindade,
então dou-lhe passagem, fique à vontade...
O primeiro é tenso,
o segundo tem mais tempo,
mas não quero provar o resto.
Deixe-me no meio,
enquanto está quente,
mas não ainda fervente,
estou sem pressa
não como cru,
estou com tempo,
vai, se apresse
e prepare a mesa,
eu quero um banquete.

Rose Chiossi

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

NORMALIDADE

Normalidade
IMAGEM MARIAH (sem aspas nem itálicos)
Em permeio ao lugar comum e qualquer lugar,
estou sem a inspiração necessária à vida.

Tudo igual. Exatamente igual e sempre.
E eu oca, cega, surda, muda.

Estreita era a estrada e se fez preciso encolher-me,
esquivar-me para não esbarrar nos espinhos
venenosos de meus próprios pensamentos.

Um caminho sem encostas, ladeiras, horizontes,
onde eu pudesse fugir de mim mesma.

Meio torpe meio tosco, refiz-me em fino cristal.
O medo se fez presente uma vez que me tornei frágil.

Diante da inevitável convivência,
percebi que sou o que me estraga.

Jaz à vontade, o livre arbítrio,
tornei-me escrava do comum.
Sou um clone da normalidade,
da mesmice. Banhada na ignorância.

Vencida na rotina, normalidade abusiva
que me faz ser só mais uma.
Malu Sant'Anna e Tahys Meybom (Miss T)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

ETERNIDADE

Eternidade

IMAGEM JOÃO SARGO

Perdera sua companheira. Há 60 anos mantinha uma estreita relação entre o amor e o ódio para com ela. Ele amava seus cabelos brancos e odiava a falta que ela lhe fazia. Ainda mantinha seu lugar posto à mesa, seu espaço na cama, seus chinelos e chambre no banheiro, até a escova de dentes no mesmo lugar. Ao por a roupa na máquina de lavar sempre punha roupas dela junto, mesmo que limpas, par fazerem companhia as dele.Os vizinhos estranhavam as roupas estendidas, as conversas animadas e a música que vinham de sua casa.Para amenizar a solidão era isso que fazia, ligava seu radinho nas músicas preferidas dela, falava alto sobre como a música lhe fazia bem, por vezes rodopiava pela casa segurando um vestido dela, e depois de muito dançar deitava ansiando sonhar com ela.A Vida lhe sorriu com uma imensa felicidade em vida que a Morte num ato de inveja boa e solidariedade levou-o logo para o encontro dela.Chegando lá ela lhe sorriu e enfim puderam novamente dançar.Se perguntares à Morte qual foi o intuito do repentino ingresso dele no céu ela diria:
_ Eu o via dançar num misto de esperança e saudade enquanto ela sorria esperando-o na entrada do portão, às vezes a via rodando também. Só queria ver os dois dançando juntos.
Tahys Meybom (Miss T)

LOGO EU!

Logo Eu!

IMAGEM UGLY


Tenho pensado tanto em suportar a dor, logo eu, ser humano amor seu constituído de músculo, carne e osso, pele, cor... Tenho tanto a falar e ainda assim basta um simples olhar seu e me faltam elas, as palavras, mas você me entende no silêncio que nos cerca e seguimos ali e aqui, dentro e fora de nós mesmos, ao sul e norte dos corpos que falam mais que o silêncio meu. E seu. Quem ama não pensa em linearidade, talvez os filmes Hollywoodianos de outrora tenham me deixado mal acostumado: quero uma continuação de histórias com finais felizes, onde o amor sempre vence, mesmo que sujeito a criticas fundamentadas apenas ao desuso da razão. Pensando bem, estar longe é estar perto, em pensamento. Acostumamo-nos a sentir a presença da ausência de maneira mais significativa, valorizando mais o objeto amoroso numa ocasião seguinte. A gente precisa conversar mais, para que não nos apaguemos em meio a tantas estrelas anônimas que brilham numa noite de verão, para que eu volte a ser eu, para que eu volte...

Gleidi Campos (Amorinha)

O VÔO DA FÊNIX

O Vôo da Fênix
IMAGEM LUÍS LOBO HENRIQUES


Hoje morri e revivi
Me senti como a Fênix
Que conhece o seu fim
Senti o peso dos anos
E a vida que passou
Senti a tristeza que dominou
E falta do que não vivi
Vi meu corpo se desfazer
E para algum lugar distante
O Vento me levar
Sem a história terminar
Mas semelhante à Fênix
Me vi ressurgir das cinzas
Agora mais bela e altiva
Totalmente imponente!
Dona de mais uma longa vida,
Até que novamente retorne...
às CINZAS!!!
Felicity

PROLIXA

Prolixa
IMAGEM CARLOS ALMEIDA (UK)


Profusão de versos,
de sentidos, ressentidos caldos
que dariam uma bela sopa de letrinhas.
Mas é minha a vontade
e dela sei pouco ainda...
Sei que é madura,
e pode até mesmo ser tardia,
amarga e estranha, talvez,
mas não é por nada vazia.
E por descer pelo flanco
feito lava flamejante,
sulcando a verve, verborréia
como se fosse a poesia
às vezes, a vontade me fere,
queima e mutila quando se cria.
Malu Sant'Anna

ODOIÁ!

Odoiá!
IMAGEM PAULO S. IEMANJÁ (RAINHA DO MAR)



Surge
Um vulto sereno
À noite na praia,
bem à beira-mar
É a rainha-sereia
Senhora da areia
E do fundo do mar
Odoiá! Odoiá!
Senhora das Ondas
Rainha do Mar!
Ouço
Seu canto dengoso
Seu andar vaidoso
Me ponho a rezar
Peço com devoção:
Nas águas da vida
Me ensine a nadar
Odoiá! Odoiá!
Senhora das Ondas
Rainha do Mar!
Lena Ferreira (Sereníssima)

POESIAS

Poesias
IMAGEM GOOGLE SEARCH - FLOR NO CASCALHO
Inspiro e suspiro poesias
palavras brotadas da alma
ora podem ser sombrias
ora podem ser elevadas.
Busco no fundo da alma
um momento de inspiração
sinto o amor chegar numa canção
em melodias brandas e calmas. (Rose Chiossi)
Brandas e calmas as letras vão caindo
Os ritmos da voz se vão calando
Silenciosamente as letras vão cantando
E o peito do poeta vai ouvindo
Ele ouve angústia, ouve carinho
Devaneia alguma voz enamorada
Se deixa levar de alma embriagada
No anseio de encontrar a amada pelo caminho
Desperta do sonho - desalento!
Impera a calada dor do sentir insano
Que em chaga tem o peito pestilento

E as letras não param!
Vou ouvindo, caindo, chorando
Silêncio! Lágrimas falam... (Kreischer)

SER FELIZ É

Ser feliz é...



IMAGEM MARCELO PIU



Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz não é uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar para dentro do seu próprio ser.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da tua própria história.
Não é atravessar desertos fora de ti, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da tua alma.
É agradecer todas as manhãs pelo milagre da vida.



Ra Teixeira

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

QUERO AR... (SÚPLICA LIBERTÁRIA)

Quero ar (Súplica libertária)
FOTO PAULO S. - IANSÃ, RAINHA DOS VENTOS
Preciso de ar...
Um ar novo,


fresco...

Espaço aberto

arejado,

nada rarefeito

sem efeito,

onde o feito

seja obscuro,

obtuso,

recluso.

Me recuso!


Quero ar!

Brisa ou ventania...

Pouco importa!

Quero imensidão,

amplitude,

atitude!

Altitude? Talvez!

Longitude? Nem tanto.


Serei um ser alado... livre.

Quero o ar da liberdade

de ser eu, mesmo

entre as paredes fechadas.

Não mais estar

enclausurada no íntimo

sufocado do ser...

Não ao vácuo!

Não à clausura!

Não à morte lenta do sufocamento!


Quero ar...


Tahys Meybom (Miss T)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

DELIRIUM

Delirium

FOTO: DDiArte


Perco-me tanto em sensações loucas que crio que ao perceber o desvario eloqüente já não sei quem eu sou: se personagem de minha mente fragilizada ou se sou isso mesmo, resultado de influências externas, causa única e primeira de algo que me tornei. Eu rio alto, escandalosamente, e choro na mesma intensidade para chamar a atenção.
Sou calma, na maioria do tempo, mas trago escondido um olhar de Bette Midler, que me faz inesgotável na lucidez dos fatos. Pinto minhas cenas num vermelho-almodóvar tão intenso que dói nas vistas de quem se atreve a olhar essa promiscuidade visual com toque expressionista. Se eu fosse um filme, seria um filme trash, cujo roteiro mexicano, seria dirigido pelo Tarantino, repetindo os clichês de estilo noir. Eu venço pelo exagero.
Trago comigo cores e dramas intensos, que nem um olhar sensato suaviza a interpretação. Sou covarde como um leão na jaula, mas vivo como cobra num ninho, sou over, blasé, sou duelos enfrentados por tantas “personas” dentro de mim.
Gosto do gozo fácil, da hora desmarcada, sou uma cena desfocada de películas antigas, James Dean correndo em seu carro e estraçalhando em forma de mito, em poeiras cósmicas, com luzes de letreiros néons piscando irritantemente sob o capô do automóvel.
Eu gosto do luxo do lixo, e fuço-o usando máscaras para evitar a expansão dos gases lacrimogêneos, porque embora não aparente, eu sou sensível. Eu admiro ídolos de papel, gosto do mau gosto e de meus sentimentos pouco nobres.
Arrisco-me a dizer que sou uma expansão de algum sonho meu, sou tão fútil, tão inocentemente vulgar, tão antigo e casto, tão kitsch... Guardo lembranças e finjo esquecê-las, não entendo muito as razões do outros, mas as minhas são normais: eu quero o muito do pouco, todo dia.

Gleidi Campos (Amorinha)

MARCAS DO PASSADO

Marcas do passado



FOTO GRAÇA LOUREIRO
Quantas imagens me vem à cabeça,
imagens que gosto de lembrar,
outras que gostaria de viver
novamente...
Na mesma intensidade.
Quantas sensações marcaram.
Sensações que tatuaram o coração
no corpo e no meu pensamento
profundamente...
Apenas por uns momentos.
Quantas palavras ecoam nos meus ouvidos,
palavras ternas em livres delírios,
sussurradas em tom amável,
delicadamente...
Numa voz embargada de amor.
Quantas marcas você deixou em mim.
Marcas do passado que não se apagam.
Tornando-se cada dia mais presente.
Intensamente...
Que nem a superficialidade pode apagar.
Marcas do passado que hoje é presente.
Passado que se tornou realidade,
que em sonho transportou ao amor
carinhosamente...
E nem o futuro poderá negar.
Felicity

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

CAMINHADAS EM RUAS ERRANTES

Caminhadas em ruas errantes


FOTO DDiArte

Ando...
Não paro...
passos largos
passos curtos
...ando...
A cabeça não pára
guia os passos
o medo trava
com medo corro
Tropeço
caio
como poeira
levanto
olho para o céu
sem limites
tento alcançá-lo
Chove...
chuva quente
água salgada
me lava...
Lava
queima
efervesce
e
ferve
Fermenta
aduba
fecunda
renasço!
Rose Chiossi

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O ENCONTRO

O Encontro

FOTO LLONA WELLMANN - STRIPED

Fragmentei-me...
E meus cacos, estilhaçados
espalhados ao chão.
Observei... atentamente.
Onde estaria você
nesse momento?
Sem forças, me deixei
assim, por horas, a refletir:
onde estaria EU nesse momento?
Me anulei,
vivendo tua vida, simplesmente...
Quero reagir!
Quero me libertar de ti!
Quero me encontrar em mim!
Junto, cuidadosamente, os cacos...
Após longo tempo, me refaço!
Caminho, ainda frágil, e paro
diante do espelho. Reflexo claro!
Admiravelmente raro! Me deparo,
livre; o encontro esperado, enfim:
Encontro-me diante de mim!
Lena Ferreira (Sereníssima)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

ÀS BORBOLETAS

Às borboletas
FOTO GEOMETRIA DE OLHARES - RAFAELA DA SILVA

Meus pensamentos
já foram ígneos,
magma densa
e incandescente
por conta de
uns vícios meus
e outros alheios.

Mas não são mais.

Hoje são flores,
enormes, cheirosas,
férteis, coloridas.

E o melhor de tudo,
atraem as borboletas
mais lindas.

Malu Sant'Anna

**
Às Meninas